sexta-feira, 30 de outubro de 2020

 

RESENHA






As Ondas, da autoria da inglesa Virginia Woolf, com tradução para o português de Lya Luft, Editora Nova Fronteira, Coleção Grandes Romances, hoje com edição esgotada, disponível somente em sebos, é um clássico para ser lido, relido, pensado, repensado.

Eu o li no início da quarentena e – confesso – como todo clássico precisa ser primeiramente entendido para que se possa abstrair todo o sentido e, assim, chegar à sua essência.

Esse romance nos apresenta seis personagens da infância à maturidade além do silencioso Percival, ao redor de quem gira a vida dos outros, que morreu cedo, mas continuou no meio dos demais. O tema central são as experiências, as identidades e a passagem do tempo sob a ótica da essência espiritual da vida e não de seus aspectos materiais. Não é uma história com começo, meio e fim. Os seis personagens estão imersos em seus monólogos, que a autora chama de “solilóquios dramáticos”, e o mundo é vivido por eles como o lugar da impossibilidade de ser aquilo que gostariam de ter sido.

As sete sessões do livro fazem uma analogia entre as fases do dia, do amanhecer ao anoitecer, e as vozes das personagens da infância à maturidade. Numa prosa – quase poesia – acabamos conhecendo as seis personagens: seus anseios, angústias, amores, decepções.

Embora o romance tenha muito de autobiográfico, Virginia Woolf se afastou, o quanto pôde do pessoal para expressar o coletivo e afirmou que escreveu As Ondas “tendo em vista o ritmo e não o enredo”.

Nas palavras de Marguerite Yourcenar, sua tradutora para o francês, a obra “tanto quanto uma meditação sobre a vida apresenta-se como um ensaio sobre o isolamento humano”.

 

Aliris, outubro de 2020

 

 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020




MENSAGEM A MEUS FILHOS
(De Aliris para Junior, Raquel e Mauren)


Hoje, com 72 anos, ao fazer uma retrospectiva da minha vida, posso afirmar que meu saldo é positivo, tenho muitas dúvidas e pouquíssimas certezas, uma delas é que tenho mais passado do que futuro e, por isso, vivo o presente da melhor maneira que posso e, na medida do possível, só faço o que gosto.
Nesta já longa caminhada, em se tratando de família, sei o quanto elas mudam: chega gente nova que vai substituindo aqueles que já não estão mais entre nós, as uniões trazem pessoas que antes nem sabíamos que existiam e que logo se tornam também nossos familiares com lugares cativos em nossos corações.
A nossa família, como não poderia deixar de ser, não foge a essa regra e já apresenta novos contornos: gente nova, que nem é mais tão nova – Nonô, Dudu, Bebela e Rodrigo – mas também um fato que abalou todos nós. Esse fato exigiu que extrapolasse meus limites para enfrentar os novos e difíceis desafios. Sei que não apenas eu, mas cada um de vocês vem assumindo papéis que até então não lhes cabiam. Diante disso, sinto que estamos mais e mais unidos para que, juntos, possamos dar conta do que recebíamos pronto, sem preocupação, de forma tão natural que nem percebíamos o que estava subjacente. E, além disso, e principalmente, a dor de cada um de nós ao ver aquele facho de luz que guiava o nosso caminho se tornar, a cada dia, um pouco menos brilhante.
Agora, além do que já havia para fazer, estamos todos diante de uma nova missão: cuidar do nosso cuidador. E ele merece o melhor de cada um de nós, especialmente de mim, sua companheira de jornada há mais de 50 anos. Nesse nosso longo tempo de caminhada, aprendi a conhecê-lo “como a palma de minha mão”; sei o que está sentindo ou pensando apenas pelo olhar, respirar, caminhar.
Neste momento, sinto-me confortável com a herança ética, fraterna, amorosa e prática (não encontrei palavra melhor!) que foi legada a vocês. Cada um tem princípios para nortear sua vida, mas sinto-me no dever de sintetizar em cinco breves tópicos o que talvez vocês ainda não tenham se detido para pensar ou se são coisas que só entendemos com mais idade. Aliás, a idade nos ensina maravilhas!

Como seria bom que os filhos, quando muito jovens, ouvissem os pais. Com certeza, poupariam erros e sofrimentos inúteis, mas ninguém aprende senão com as próprias experiências.

Respeitar sempre o tempo do outro; cada um tem sua própria maturação.

Escolhas são individuais: o que é bom para um nem sempre serve para o outro.

É preciso amar aqueles que amamos sobretudo quando menos merecerem porque é quando mais precisam.

Bom seria se pudéssemos comprar a vida em grandes parcelas, mas só podemos comprar um pouco por dia. (João Cabral de Melo Neto, em citação livre.)

Espero que esta mensagem seja útil a vocês. Compartilhem com Nonô e Rodrigo; com Dudu e Bebela, no momento que julgarem oportuno, eles ainda são tão jovens...

Acredito, sem muita certeza, que tenha conseguido, ao longo da vida, expressar em atos o que hoje recomendo a vocês. Lembrem-se: eu antes de chegar à idade que hoje tenho, tive a idade de vocês e também passei pelas que vocês já passaram. É ... a vida, um eterno continuum!


                                               Amorosamente — outubro 2019

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


O MUNDO AINDA É JOVEM




Acabo de ler, do sociólogo italiano Domenico de Masi, O mundo ainda é jovem: conversa sobre o futuro próximo com a jornalista Maria Serena Palieri, publicado no Brasil, em 2019, pela Vestígio.
Considero esse livro uma leitura obrigatória para quem quer ver o mundo atual sob uma ótica lúcida e realista. O autor dispensa apresentações ou elogios, já que suas idéias e publicações são, há muito, consagradas mundo afora.
Os assuntos tratados nem sempre são de fácil entendimento pelos leitores não-familiarizados com sociologia, economia ou política, mas suavizados por se tratar de uma conversa do autor com a jornalista. As perguntas e respostas tornam a leitura agradável e até parece, às vezes, que são nossas as perguntas feitas por Maria Serena a de Masi. Trata-se de uma viagem ao futuro próximo através de dez conceitos e seus opostos, concluindo com uma advertência, a de que devemos estar atentos, antes “com desassossego do que com placidez”, já que as mudanças, nos últimos anos, acontecem em velocidade estratosférica.
Os conceitos tratados e seus opostos vão de desorientação e projeto; longevidade e velhice; androginia e gêneros; digitais e analógicos; trabalho e ócio; medo e coragem; engajamento e egoísmo; classe e indivíduo; inteligência e sentimentos a felicidade e leveza.
A leitura de cada capítulo, ou seja, dos conceitos e seus opostos, nos faz refletir sobre o mundo atual com suas profundas mudanças, que, de tão rápidas, na maioria das vezes, não há tempo para se deter numa análise mesmo que superficial. Estamos diante de fatos tão novos que, muitas vezes, dificultam nossa tomada de decisão diante dessa ou daquela situação, hoje vista sob ótica tão diversa daquela de 10 anos atrás.
Domenico de Masi nos lembra que da sociedade rural para a industrial passaram-se cinco séculos; da industrial para a pós-industrial, mais ou menos 200 anos. E, ainda explica que “às tecnologias mecânicas e eletromecânicas vêm se somar as digitais e, agora, a inteligência artificial”. Embora vivamos no melhor dos mundos que já houve, as mudanças ocorrem num turbilhão que, de fato, desorienta e amedronta.
Na atualidade, novos valores e formas de viver fazem parte do nosso cotidiano e frequentam, sem nenhuma cerimônia, nossa vida pública e privada.
A linguagem do diálogo é fluente e clara, a tradução de boa qualidade. Do último capítulo, entretanto, esperava mais. Nele, de Masi tratada basicamente da situação política e social da Itália dos dias de hoje e, com clareza, expressa sua preocupação com o pré-fascismo. Minha expectativa era de uma advertência ampla, de aplicação global, se bem que tal análise pode muito bem se aplicar, mutatis mutandis, a outros países: basta que se reflita sobre a realidade de cada nação.
Ao concluir a leitura, não pude deixar de fazer uma analogia desses novos tempos com a teoria evolucionista de Charles Darwin (1808-1882) — sobretudo em relação aos analógicos — “qualquer espécie animal, inclusive o homem, evolui a partir de formas mais simples ou como necessidade de adaptação ao seu ambiente”.

Aliris Porto Alegre dos Santos
26 de dezembro de 2019





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019


Hoje Raquel veio almoçar aqui em casa. Durante a semana, me falou, por telefone, que tinha feito duas novas tatuagens e eu estava curiosa para ver, já que, além de gostar, também sou tatuada.
Achei-as lindas: no braço esquerdo, uma flor média e de muito bom gosto; no direito, um pequeno ramalhete com três hastes que, em vez de flor, cada uma tem um pequeno coração, um verdadeiro mimo.
Quando, porém, ela me explicou o significado dos corações, fiquei sem palavras e, por isso, estou escrevendo. A tatuagem representa ela, eu e o pai!
Filha querida, sei que nessa tatuagem está, de fato, expressa a tua relação conosco, mas me tocou tanto porque não esperava tamanha homenagem.
Como talvez o pai não tenha conseguido aquilatar a extensão do gesto, agradeço emocionada por mim e por ele.
Amorosamente, Aliris
19.01.2019


terça-feira, 27 de março de 2018






... e a história continua a mesma

Marielle, como todos os brasileiros de bem, chorei o teu covarde assassinato. Meu sofrimento foi pungente porque vivenciei o fato como mulher, mãe de família, profissional (hoje aposentada) e, sobretudo, como sobrinha de Helena Ferrari, uma das primeiras vereadoras brasileiras, eleita, em 1951, pelo, então, Partido Trabalhista Brasileiro para seu primeiro mandato em Santa Maria.
Minha tia não levou tiros como tu, Marielle; ela foi sendo morta covardemente, um pouco por dia, perseguida pela sua audácia, pelo seu destemor de apontar o dedo à corrupção e aos mandos e desmandos, mas, principalmente, pelo preconceito, pela impossibilidade de realização de seus mais legítimos direitos. Enfim, por ser mulher!
Helena Ferrari sofreu muito e não mais suportando o embate de cada dia, se “exilou”, em pequeno espaço de uma residência da família, na rua Tuiuti, até que a demência por Alzheimer, certamente, a fez menos infeliz pelo esquecimento característico da doença.
Marielle, assim como minha tia Helena e tantas outras mulheres, vocês foram mártires de uma causa e deixaram um legado inestimável: abriram caminhos para outras mulheres que ainda lutam e lutarão por um mundo melhor e mais justo.  

Aliris Porto Alegre dos Santos





Publicado no Diário de Santa Maria, em 26.03.2018.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018




AOS REPÓRTERES DE TV*

Se lhe perguntarem:
Você é poeta?
Você responderá:
Não, sou repórter!

Mas saiba:
Se você é repórter,
É também poeta!
Sabe por quê?

As suas matérias do dia a dia,
Da história, da ecologia e tantas mais
Trazem um tanto de conhecimento e informação precisa,
Mas dois “tantos” de pura poesia.

Isso também é ser poeta!


*Especialmente para minha filha Raquel e sua “trupe”.

Amorosamente, Aliris
      Em 17.01. 2018


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

RESENHA de TERRA DOS HOMENS


Recentemente, li Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, Editora Nova Fronteira, 149 páginas, tradução de Rubem Braga e introdução de Armando Nogueira.

O livro foi presente da minha sábia amiga Theresa Catharina e me encantou, me fez sorrir e pensar. E, como Armando Nogueira, também não sei se “... terá sido a musa da poesia que enriqueceu a narrativa de um notável piloto ou o próprio destino de piloto fez o escritor voar não só nas asas do vento como nas asas dos versos?”

Saint-Exupéry, apaixonado por aviões desde a infância, tornou-se piloto civil aos 21 anos e, aos 26, integrou a equipe do Correio Aéreo da Europa para a África e América do Sul. Ele e seus companheiros tinham, diante de si, os desafios do Saara, dos Andes e do largo Atlântico, usando aparelhos pouco seguros e planos de voos incertos e ainda por serem complementados e até refeitos.

A narrativa dessas viagens é o pano de fundo para os voos que fazemos ao ler o livro. Visitamos paisagens desconhecidas; vemos o céu estrelado, palco das viagens noturnas; sentimos o frio e os perigos dos Andes; o rigor tanto dos dias como das noites no deserto.

Todos esses desafios, enfrentados pelos pilotos e superados com força sobre-humana, nos levam a refletir sobre a vida nossa de cada dia, que impõe coragem, às vezes, hercúlea.

Pela leitura, ficamos conhecendo seus amigos como Néri, Mermoz e Guillaumet, a quem o livro é dedicado; suas emoções expressas aqui e ali, dentre as quais destaco, “Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida nas bases mais íntimas. As noções de separação, ausência, distância, regresso são realidades diferentes no seio de palavras que permanecem as mesmas.”; e também seus gostos pessoais como pelo café da manhã: “A alegria de viver se resumia para mim naquele primeiro gole matutino, cheiroso e quente, naquela mistura de leite, café e trigo que nos liga às pastagens calmas, às culturas exóticas e às searas – que nos liga à terra inteira.” E, com a sensibilidade aguçada, as entrelinhas permitem a cada leitor viagens únicas e inimagináveis.

Embora Terra dos Homens tenha sido publicado em 1939, continua atual, pode-se dizer, atualíssimo como na afirmativa que merece ser transcrita: “Se às vezes julgamos que a máquina domina o homem é talvez porque ainda não temos perspectiva para julgar os efeitos de transformações tão rápidas como essas que sofremos. Que são os cem anos da história da máquina em face dos duzentos mil anos da história do homem?”

Saint-Exupéry partiu em 31 de julho de 1944, de uma base aérea na Córsega para uma missão de reconhecimento e seu avião nunca mais voltou. Ele, entretanto, continua a viajar conosco entre sonhos, estrelas, dificuldades, superações... novas rotas.


Aliris, em 30.12.20017