sábado, 11 de maio de 2013

ECOS DE UM COTIDIANO






Ao longo de nossas vidas, passamos por diferentes – e até opostos – momentos interagindo com as mesmas personagens. Temos amigos de longa data, é claro, mas isso acontece principalmente no meio familiar.
 Assim a nossa relação com nossos pais não foge a essa regra: no início, somos inteiramente dependentes deles e a situação, sem que percebamos muito bem, vai se modificando, modificando... até chegarmos à situação inversa. Como tenho dito a meus filhos, o momento dessa troca inevitável e irreversível é muito difícil tanto para uns como para outros... Mas é a vida! Até que chega um dia em que os pais partem... e os filhos passam a ter uma estrela guia em cada um deles. Que bom, pais e filhos         continuam juntos a caminhada!
Meu pai é, para mim, uma estrela que me orienta, me aponta caminhos, me aconselha há mais de 30 anos; minha mãe, pelo seu atual estado de saúde, acredito, que viva entre dois mundos: quase não participa mais deste, mas já “visita” outras dimensões. É o que penso... se estou certa, pouco importa! Não estou mais preocupada com certezas, exatidões, mas apenas em sentir, entender, como posso, o não dito, o nem sempre aceitável.
Felizmente, eu e minhas irmãs, Iainha (Ana Maria) e Ana Lucia, soubemos, muito bem, no dizer da mãe, “separar o joio do trigo” nessa quadra da vida familiar e nos tornamos ainda mais próximas, solidárias e cúmplices no bom sentido. Essa, como qualquer outra situação, por mais difícil que seja, sempre traz consigo seu lado positivo. É só saber procurar com sensibilidade e, se nada for encontrado, pelo menos, que saibamos entender a mensagem que, ali, inevitavelmente existe.
Num encontro de nós três em Porto Alegre, no ano passado, conversávamos e, sem perceber, ora repetíamos uma ou outra expressão que ouvíamos da nossa mãe. Foi, então, que nos detivemos no sem-número de provérbios, ditados e expressões que ela usava no cotidiano. Para “não gastar o seu latim”, expressava por metáforas o que muitas palavras não diriam tão bem nem com tanta poesia, se bem que, às vezes, ela estivesse “sem poesia!”, ou seja, sem ânimo, sem muito entusiasmo. Nesse dia, resolvemos anotar toda essa riqueza que nos foi presenteada ao longo da vida e, à medida que nos lembrávamos, numa ação conjunta, fomos relacionando e chegamos a  pouco mais de uma centena. Foi mais um bom momento que a mãe nos proporcionou na sua mudez  muito mais eloquente do que silenciosa.
O que compilamos, nada mais é do que um registro amoroso e, ao mesmo tempo, pitoresco que muito bem expressa a filosofia de vida da nossa mãe. Hoje nós usamos ora com uma, ora com outra expressão que ela dizia, o que mostra o quanto dela existe em cada uma de nós. Talvez a relação não esteja completa, mas sempre será tempo para acrescentar o que for sendo lembrado.
Leia, divirta-se, registre o que achar interessante... logo, logo, você estará usando. Há coisas – que achamos – só ela sabia! Outras, um pouco herméticas, quando necessário, consulte a “tradução”! Com certeza, vale à pena ler! Como linguista, não posso deixar de acrescentar que é, também, uma variante tanto temporal como regional. Com toda a certeza, nem sempre muito clara para as novas gerações e/ou para quem não é familiarizado com o falar gaúcho.

Ela dizia com freqüência: Atrás de mim, virá quem bom me fará!(1)/ Faça o bem sem olhar a quem!/ Dia de muito, véspera de pouco!/ Quando o gato sai, os ratos tomam conta!/ Onde o galo canta, janta!(2)/ Quem come de pé, não alcança o que qué(r)!/ Quem dá o que tem, a pedir vem!/ Quem veste o alheio, na praça o despe!(3)/ Não vale a pena gastar pólvora com ximango!(pra não esquecer a história do RS)/ Muito riso, pouco siso!/ Quem faz mais do que pode, é ladrão!(4)

Estas são imperdíveis: É fácil fazer cortesia com o chapéu dos outros! /Quando o pobre acha um ovo, é podre!/ Às vezes, é preciso ter paciência de Jó!/ Quem não tem cabeça, tem perna(s)!/ Não vá o sapateiro além da sola!(5)/ Beleza não põe a mesa!/ Não sei se assobio ou se toco flauta!/ Quem puxa aos seus, não puxa aos estranhos!/ Quem canta, seus males espanta!/ Ata ou desata! (ela sempre foi muito educada)/ Em casa de ferreiro, espeto de pau!/ Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece!

Anote também: Quem não tem cão, caça com gato!/ Cavalo dado não se olha o pelo!/ Deus ajuda quem madruga!/ Nunca falta um chinelo velho pra um pé torto!/ Não tem eira nem beira! (6)/ Viva o luxo e ronque o bucho!/ Cada macaco no seu galho / Não há bem que sempre dure nem mal que se não acabe!/ O que é de gosto é o regalo da vida!/ Comer o pão que o diabo amassou com os pés!/ Dai a César o que é de César!/ Coso-te vivo(a), vivo(a) te coso!(7)

Algumas situações só eram bem expressas por: Pra o bom entendedor, meia palavra basta!/ Quem cala, consente!/ Estava dando sota e basto!(8)/ Devagar se vai ao longe!/ Antes só do que mal acompanhada!/ O seguro morreu de velho!/ Quem semeia vento, colhe tempestade!/ Pra quem é, bacalhau basta! (9)/ Depois do mal feito, chorar não há proveito!/ Devagar com o andor porque o santo é de barro!/ Mais beijado(a) que anel de bispo!(10)/ Mais vale um pássaro na mão do que dois voando!/ Ali, educação é manga de colete!

Mas havia espaço para: Isso só vou admitir o dia em que as galinhas criarem dente!/ Não sabe o que quer! Parece a cobra que perdeu o veneno!/ Gato escaldado tem medo de água fria!/ Juntou a fome com a vontade de comer!/ Parece que está matando cachorro a grito!/ Nem tanto ao mar, nem tanto à terra!/ Ir de vento em popa!/ É pior que procurar agulha no fundo do palheiro!/ Vai dar com os burros n’água!/ Não se pode contar com o ovo que a galinha ainda não botou!

E a fila ainda não parou: Pior a emenda que o soneto(11)/ Mais abandonado que gato em tapera!/ Mais sujo que o último pau de galinheiro!/ O cachorro, quanto mais magro, mais sarna tem!/ Deus dá o frio conforme o cobertor!/ Não te mete de pato a ganso!/ Cada um colhe o que semeia!/ Em terra de cego, quem tem um olho é rei!/ Cuidado com remédio pra não morrer da cura!/ De mal agradecido, o inferno está cheio!/ A dor ensina a gemer!/ Não come o ovo, pra não botar a casca fora!/ Quem conta um conto aumenta um ponto!/ Amarra-se o burro à vontade do dono!/ Ela? Continua dando pancas!(12)/ Quem foi rei, sempre será majestade!

Para nós, as filhas, havia conselhos e advertências especiais. Eram algumas vezes educativas, amorosas; outras, bastante severas. Não podemos esquecer que, como dizia meu pai, “ela é uma pessoa muito boa, mas muito matemática”, a uma alusão a ser ela professora dessa disciplina.

Quando pequenas ouvíamos com frequência: A mentira tem pernas curtas!/ Quem mente, furta!/ O que arde cura, o que aperta segura!(13)/ É preciso rédeas curtas!/ Estou só te cubando!(14)/ Estou vendo, tu “tá” só empalhando!(15)/ Crianças, vocês estão pedindo laço(16) como pão pra boca! Felizmente ficava só na conversa. E, ainda, “Isso brada aos céus!”, quando nós reclamávamos da comida. E, completava, “Há crianças que não têm sequer um pedaço de pão pra matar a fome”.

  Mais tarde, o enfoque mudou e nós muito escutamos: Ouve o conselho de quem muito sabe, mas ouve principalmente o de quem muito te quer! / As palavras comovem, os exemplos arrastam!/ Não vai arrumar sarna pra te coçar!/ Cuidado com o que vocês fazem, senão podem ficar faladas!/ Dize-me com quem andas que dir-te-ei quem és!/ Quando tu está(s) indo, eu já estou de volta...há muito tempo! (uma enroladinha não era fácil!)/ Como demorou... quando eu tiver que mandar buscar a morte, peço pra ti!/ Primeiro o dever, depois o prazer! Mãe, será que alguma vez não se pode comer primeiro a sobremesa?! Acho que sim! Talvez, hoje, com a “lição de casa” em dia a gente, às vezes, possa se permitir.

Nos diálogos, ela usava expressões que lhe eram muito peculiares como: Falando com os meus botões.../ Fiquei com o coração na mão.../ Botando os pingos nos iis.../ Mudando de saco pra mala/! Quando eu bater as botas.../ Fiquei em maus lençóis!/ Estou com o pala em tiras!(mais um gauchês!)/ Fiquei em palpos de aranha!(17)

A citação aleatória, sem nenhum critério lógico, nada mais é do que a forma como guardamos na memória. Lá, está tudo muito bem registrado, disponível para usarmos à vontade no momento oportuno, tudo com o sabor de um cotidiano distante, muito mais alegre do que triste, mas sempre solidário, amoroso e fraterno.  
Ao registrar, dividimos com outras pessoas o que ela não mais expressa, mas foi sua marca registrada. Enfim, um pouco de sua filosofia de vida... toda ela, só nós três tivemos o privilégio de conhecer e, hoje, orienta nossas vidas e a de nossos filhos e netos, o que a torna presença viva no seio da família. Podemos até dizer, ela é como uma sempre-viva, uma florzinha singela, mas com nome profundamente significativo, pois quanto mais se cala, mais e mais presente se faz!  


 Amorosamente, Aliris, com a colaboração e o endosso de Ana Maria e Ana Lucia, filhas de Alyrio e Iolanda Porto Alegre, pelo Dia das Mães, em 2013.
                     
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(1)     Uma situação que muito bem explica esse ditado é a do povo que reclama de um governante, no entanto, quando este é substituído, logo percebe que o anterior era bem melhor.
(2)     Uma alusão aos maridos traidores que, após o trabalho, passavam na casa da “outra”, mas iam jantar em casa, tomar banho, deixar roupa suja, mau humor... .
(3)     Refere-se a usarmos o que não é nosso e à possibilidade de podermos, a qualquer momento e até em situação constrangedora, sermos obrigados a devolver ao dono.
(4)     Não significa apenas roubar alguma coisa de alguém, mas de nós mesmos, ou seja, esquecer que temos limites.
(5)     Um sapateiro, visitando uma exposição de quadros, disse ao artista que a bota do cavaleiro num dos quadros, tinha um defeito. O artista ouviu-o atentamente e corrigiu seu erro. Ao voltar lá, o sapateiro, muito feliz, achou a correção perfeita, mas explicou ao artista que agora o que precisava ser corrigido era a gravata do mesmo cavaleiro. O artista lhe respondeu:
— Não vá o sapateiro além da sola!
(6)     Uma referência à arquitetura do Brasil colonial em que as casas tinham eira, beira e até tribeira, dependendo da situação financeira do proprietário, quanto mais rico mais detalhe! Quem não tinha eira nem beira, estava na miséria.
(7)     Também uma referência ao Brasil de então em que era costume costurar a roupa ou a mortalha no corpo do defunto. Assim, se alguém costurasse ou fizesse qualquer ajuste na roupa que outra pessoa vestia, devia repetir essa expressão para não parecer que estivesse lidando com morto.
(8)     Sota e basto significa ser mais esperto que os outros; vencer (alguém) em alguma habilidade; dar a sorte. Sota = dama das cartas do baralho; basto = ás. Botar na mesa a um só tempo essas 2 cartas, em determinado jogo, certamente era a grande cartada.
(9)     Mais uma alusão ao passado, quando comer bacalhau – ao contrário de hoje – era vergonhoso. As pessoas, quando cozinhavam essa iguaria, fechavam portas e janelas para que os vizinhos não sentissem o cheiro. A expressão completa é: “Pra quem é pouca coisa, bacalhau basta!”
(10) Também de antigamente, pelo menos é o que penso! Vem do costume de os fiéis beijarem o anel do bispo da diocese.
(11) Às vezes, tentar consertar uma situação ou uma afirmativa, é bem pior.
(12) Do gauchês, significa um comportamento por demais extrovertido. É claro, aplicava-se principalmente às mulheres.
(13) Era o que ouvíamos quando tínhamos que lavar ou aplicar remédio, principalmente mertiolate em qualquer machucado.
(14) Como professora de matemática, usava o verbo cubar, no sentido de medir a capacidade dum recipiente ou recinto. Metaforicamente, estou te avaliando, te observando.
(15) Demorando, “enrolando”.
(16) Laço, em gauchês, significa surra.
(17) É o mesmo que fiquei em apuros.

quinta-feira, 2 de maio de 2013


POR QUE SÓ AGORA ESCREVO?


É o que familiares e amigos insistentemente querem saber. Diante da inquietação de tantas pessoas, também me questionei e fui em busca da resposta. Para isso, muito “conversei com os meus botões”, para usar uma expressão da minha mãe! Não sou de ficar sem resposta quando a pergunta, de fato, merece ser respondida.


Na minha conversa íntima, expliquei a mim mesma que essa faceta só agora teve oportunidade de se mostrar, porque minha vida foi sempre um corre-corre, dividida entre a família e a profissão. Acrescente-se a isso duas realidades que vivi: uma comum a todas as mulheres, hoje, na década dos “sessenta e uns” e outra particular. Esta, a minha mudança com a família de Santa Maria-RS para Brasília, com três filhos pequenos, a mais moça com apenas dois meses; aquela, o desconforto por não estar me dedicando integralmente aos filhos.


Enfim, a família exigia de um lado; a vida profissional e o constante aperfeiçoamento – já um imperativo, de outro. Havia também um dilema íntimo: como tirar mais tempo da família para o deleite da escrita descompromissada?! Vontade de escrever nunca faltou! Felizmente, na vida, há momento para tudo, basta querer!


Pensei, então, hoje, aposentada, com os filhos adultos e independentes, sem precisar ser “equilibrista” para dar conta de tantos afazeres, me sobrou tempo para o deleite, recordar, registrar e abrir janelas para expor alegrias sentidas, emoções vividas, enfim, o que considero relíquias que merecem ser compartilhadas.


Como minha explicação me pareceu um tanto lógica e objetiva, resolvi ler um pouco de poesia. É sempre bom! E não tardei a encontrar eco para o que havia pensado no que disse em versos o poeta austríaco Rainer Maria Rilke: no começo da manhã, os pássaros voam para todos os lados, em todas as direções, fazem mil coisas... Ao cair da tarde, têm uma só direção: a volta ao ninho, sem mais conversa ou dispersão.


Continuando minhas leituras, em Fernando Pessoa, com o pseudônimo Álvaro de Campos, achei uma explicação que não me havia ocorrido. Deparei-me com um esclarecimento a mais, uma ampliação das minhas justificativas preliminares, coincidentes com o que penso e com a crença que professo nesta quadra da vida.




O poema, transcrevo a seguir.
Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...


Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...




Como se sabe, nas obras dos grandes poetas, escritores e pensadores de todos os tempos, as perguntas que nos inquietam são respondidas, se não de maneira explícita, claras nas entrelinhas. É só aguçarmos a sensibilidade!


A quem me inquiriu e a mim mesma, a resposta – por enquanto – é esta: hoje escrevo porque com disponibilidade de tempo e novos interesses, entrei em outra sintonia e escrever é apenas uma das riquezas desta feliz fase da minha vida, enfim, escrevo porque o momento exige e a minh’alma está repleta. Escrever, considero o reino intermediário entre as minhas lembranças e fantasias, ora alegres ora nostálgicas, e a minha atual realidade que me permite expô-las e compartilhá-las com familiares, amigos, leitores anônimos.  E, se não for muita pretensão, que meus escritos possam soar amáveis e, assim, despertar suaves e afetivas emoções em meus leitores.


  Abençoadas janelas!!!


       
        Na casa da minha mãe, em Santa Maria
                           30.03.2013

AS SILENCIOSAS HISTÓRIAS


Objetos, músicas, flores, sabores, plantas, ruas, cores... guardam histórias diferentes para diferentes pessoas.


Assim é minha máquina de costura. Há muito sem uso, mas de uma imensa carga de amor que revela preocupação, amor filial, proteção, enfim tudo que uma criança de quatro anos pode fazer para minimizar o “trabalho” da mãe e, com isso, expressar seu amor.


Quando Junior, meu filho mais velho, era pequeno, eu costumava reunir as peças de roupa que precisavam de conserto para, numa tarde de folga, ir à casa de D. Aurora, minha sogra, fazer-lhe companhia e repará-las, já que eu não tinha máquina de costura. Junior ia comigo e, enquanto eu consertava as peças, batia papo com D. Aurora, ele brincava distraidamente e, então, os três tomávamos o inesquecível café da tarde que ela preparava com tanto desvelo. Nunca imaginei a percepção do Junior sobre aquelas tardes. As crianças, muito mais que os adultos, leem sutilmente nas entrelinhas!


Era assim essa faceta da vida familiar que teria certamente sido esquecida não fora a interferência do Junior que, certo dia, disse ao pai:


“— Pai, aqui está o meu cofrinho! Com esse dinheiro, quero comprar uma máquina de costura pra minha mãe pra ela costurar em casa.”


O pai concordou com ele e, como estava próximo do Dia das Mães, num sábado de manhã, foram juntos comprar a máquina de costura, supostamente apenas com o dinheiro do cofrinho. Junior, na sua doce inocência infantil, me deu, “com suas economias”, um belo e inesquecível presente naquele Dia das Mães.


Mais de trinta e cinco anos se passaram, muito usei aquela máquina, sempre sentindo vibrar o amor que dela emana. Nesses anos todos, Junior sempre soube escolher presentes especiais para mim, que me surpreendem pela utilidade e pela sensibilidade de saber o que, de fato, vou gostar. Isso só se explica pelas afinidades de longa data... que, com certeza, remontam a esta nossa breve existência.


Hoje já não costuro mais, prefiro fazer tricô, ler, escrever, brincar e conversar com os netos Eduardo e Isabela, esta filha do Junior. Por essa razão, resolvi doar minha máquina para uma pessoa que, hoje, está na busca da sua profissionalização e, para isso, precisa de uma máquina de costura, que, embora antiga, funciona muito bem.


Essa atitude é espelhada na de meu filho e espero que a máquina e essa breve história sejam úteis: a máquina no aspecto material e a história que contei no campo afetivo. Tenho certeza, a preocupação, o carinho, o amor serão sempre profícuos, fonte de novos e nobres sentimentos...


Assim é a vida: o amor se espalha, se expande e é por isso que amar nunca será inútil, mesmo quando expressso em gestos pequenos ou infantis. Estes, nós, adultos, precisamos de sensibilidade para entender, já que a dimensão da alma das crianças é imensamente maior que a nossa.



                                                      Amorosamente, Aliris
              16.04.2009

HOMENAGEM A UMA GRANDE MULHER

Helena Ferrari Teixeira
(19.11.1921 – 15.03.2004)

 
       Santa Maria, no Rio Grande do Sul, (à época Santa Maria da Boca-do-Monte), no final da década de 1940, conheceu figura singular que, como o famoso Vento Norte*, de forma marcante, tocou a todos: a maioria reprovava as atitudes liberais daquela moça bonita, inteligente e de oratória brilhante; outros poucos, ou melhor, outras poucas mulheres vibravam com sua ousadia e suas destemidas atitudes, porém calavam-se diante das circunstâncias impostas pelos costumes vigentes. Sim, pois a cidade, nessa época, com padrões altamente rígidos em relação à moral e aos costumes, nunca tinha visto uma mulher distinguir-se de forma tão inusitada. E Helena Ferrari (seu nome “de guerra”) era política, seguidora e amiga de Getúlio Vargas, líder feminista (antes mesmo de se ter forjado o termo com as sucessivas conotações) e poetisa de alta sensibilidade.

 Helena Ferrari ficou órfã de pai aos 14 anos, logo após a família ter perdido a fortuna e, desde então, foi criada, juntamente com as duas irmãs, apenas pela mãe, uma uruguaia de nascimento, mas brasileira de coração.

 A começar, uma casa só de mulheres já suscitava dúvidas. Acrescente-se a isso o fato de uma delas ter participado, na cidade, da fundação do, então, Partido Trabalhista Brasileiro, passar a freqüentar rodas de discussões políticas, participar do movimento Queremista (queremos Getúlio), e ainda poetar. Era muita ousadia para os padrões da época, no interior do Rio Grande do Sul. Helena exerceu também o magistério como professora de Língua Portuguesa, mas seus ideais não cabiam nos limites da  escola. Ela queria mais: falar em praça pública, escutar os humildes e reivindicar seus anseios, erguer a bandeira do partido.

Em Santa Maria, tal como ocorrem mudanças climáticas marcantes, também havia costumes de verão e de inverno. Nas noites quentes, as senhoras da alta sociedade, acompanhadas de suas famílias, reuniam-se na Praça Saldanha Marinho e após, com muita elegância, dirigiam-se ao Bar Tropical para saborear salada de frutas com sorvete; já nas tardes de inverno, reuniam-se para chás em uma ou outra residência para, enquanto tricotavam ao pé da lareira, trocar receitas e ouvir os últimos sucessos de Carlos Gardel. Inversamente a esses costumes, Helena participava de discussões no Café Cristal —  reduto exclusivamente masculino — (as senhoras, quando desacompanhadas, passavam pela calçada do outro lado da rua!), onde se debatiam questões de interesse político e social, sobretudo as relativas aos trabalhadores; ou freqüentava, juntamente com outras poucas mulheres, como Mercedes Begueristein e Maria Rita Assis Brasil Weigert, a sede do PTB, onde fazia parte da Ala Feminina da qual foi fundadora e presidente.

A participação política e social de Helena foi tão marcante que, em 1952, elegeu-se vereadora em sua cidade natal, fato que se repetiu em 1956 e em 1960, sempre com expressivo número de votos. Seu trabalho público, à medida que o tempo passava, tornava-se mais e mais reconhecido e, como é natural, também seus admiradores e opositores se ampliavam em cada um dos lados antagônicos. É importante salientar que sua atuação política não foi influência familiar, pois não havia ninguém que militasse nessa área. Muito pelo contrário, a família criticava-a severamente. Enfim, ela abriu seu próprio caminho!

Ao assumir seu primeiro mandato na Câmara de Vereadores,  de imediato, Helena solicitou a criação de mais um colégio estadual para Santa Maria. Conseguiu seu intento com o nome de Colégio Estadual Manoel Ribas, o que  ela  considerava sua maior conquista pelo muito que essa instituição de ensino, até hoje, representa para a cidade.

Suas inquietações não pararam por aí! Helena Ferrari, como seguidora de Getúlio Vargas, apoiou a classe operária, sobretudo, a dos ferroviários, pois Santa Maria, por sua posição geográfica, era, nesse período, importante centro da Rede Ferroviária Federal.

Fato curioso na sua vida pública ocorreu em determinada visita de Carlos Lacerda à cidade. Ela, de maneira histórica, liderou uma passeata de mais de duzentos ferroviários que protestavam contra o adversário do grande líder da classe operária. Essa passeata realizou-se às 10 horas de uma manhã ensolarada e Helena subiu a Avenida Rio Branco, a principal da cidade, à frente do pelotão de homens, todos, como ela, de guarda-chuvas abertos, gritando: "Corvo! Corvo!" em ritmo cadenciado.

Essa grande mulher era movida por ideais nobres, por isso não se deixava intimidar pela perplexidade que causava nem pela constante censura da família. Sua postura política e sua visão social estiveram sempre acima das convenções vigentes. Com postura tão diversa da dos padrões de sua época, ela não se casou, mas conviveu com carinho e entusiasmo com os quatro sobrinhos. Dentre esses sobrinhos, estou eu que precisei ficar adulta para aquilatar o seu importante papel na trajetória da emancipação da mulher e lhe tributo hoje o meu mais afetuoso reconhecimento e profunda gratidão.
      
Com o golpe militar de 64, Helena viu destruídos os ideais que buscou com tanta determinação e preferiu, então, viver das lembranças do passado e assistir ao crescimento das sementes que lançou em terra fértil. Até onde lhe foi possível, acompanhou com entusiasmo cada conquista feminina. A esse respeito, numa das cartas da nossa doce e reflexiva correspondência, em que respondia sobre minhas considerações acerca da relevância de seu papel, afirmou: "orgulho-me, sem vaidade, por ter  contribuído para a valorização da mulher e para a busca de um mundo melhor".
      
Espero, sinceramente, que, não apenas para as novas gerações da família, sua luta sirva de motivação às mulheres que, embora já tenham percorrido um longo caminho nas suas conquistas pessoais e sociais, ainda se veem à frente de muitas barreiras a vencer. E, conforme o pensamento de Helena, empenhem-se nisso para a construção de um mundo melhor e mais fraterno.
                                                            

*Vento forte e uivante que periodicamente assola Santa Maria e, se não mexe  com a sensibilidade, pelo menos afeta o humor das pessoas.


Brasília/abril de 2004
Publicado no Jornal A Razão (Santa Maria), em 08.03.2005

sábado, 16 de março de 2013

DAS HELENAS À DILMA

Esta, presidente de todos os brasileiros; aquelas, degraus
anônimos que abriram caminhos.

No nosso país existe, até hoje, uma grande lacuna – o desconhecimento da participação da mulher na formação da sociedade brasileira – o que torna destorcida a História do Brasil. Esse lamentável fato impede que homens e mulheres tenham referências concretas e possam ver não só as mulheres públicas, mas também as bem próximas na plenitude de seus valores.
Nós, brasileiros, vivemos hoje um fato novo na História do país: uma mulher é Presidente da República. Sem considerar ideologias políticas, Dilma Rousseff exerce as funções do cargo com empenho e distinção, e muito bem representa as mulheres brasileiras. Ela se alinha a outras poucas mulheres que também são presidentes de importantes nações ou ocupam cargos de relevância em seus países.
Essas figuras emblemáticas, além de suas atuações, estão aí para nos mostrar que o curso da História está mudando: a todas essas mulheres mundo afora, nossa homenagem, respeito, solidariedade, apreço.
Há, entretanto, algumas perguntas que não podem calar: Como elas chegaram lá? Foram elas desbravadoras solitárias? Não, elas tiveram antecessoras que “quebraram a cara”, renunciaram, muitas vezes, a seus interesses pessoais ou ao conforto de suas vidas pacatas e bem-vistas para afastar as primeiras pedras do caminho.
Detendo-nos apenas no Brasil, lembramos grandes mulheres que nesta ou naquela esfera foram pioneiras. Berta Lutz, que se imortalizou como defensora do voto feminino; Auri Moura Costa, cearense, primeira juíza e desembargadora no Brasil; Bibi Ferreira, artista, que estreou em 1941; Carmen da Silva, socióloga, escritora e feminista militante, ameaçada de uma surra por um grupo de homens, em Goiânia, após uma palestra; Bárbara Eliodora, primeira mulher a se envolver numa insurreição puramente republicana; Ana Nery, voluntária na guerra do Paraguai; Dorothy Mayron Taukane, da tribo Bakairi, MT, destaque pelo seu trabalho de integração da mulher no processo socio-político e econômico do país, para citar apenas algumas dentre muitas.
Aqui se faz necessária uma referência e um reconhecimento imperativo: a todas as professoras de ontem e de hoje, deste imenso Brasil, porque elas são, por definição, fazedoras de caminhos: abrem avenidas espaçosas, calçadas de conhecimento, de força de vontade e disciplina intelectual. Incluo, aqui, meu modesto testemunho pessoal: foi como professora que, mesmo no Regime Militar, pude fazer política, não a partidária, mas a que politiza as pessoas para que exerçam plenamente suas potencialidades e aspirações, tanto intra como extramuros, sejam elas quais forem.
Para que pudéssemos viver o Brasil de hoje, com a força feminina atuando no cenário econômico, político e social do país, muitas mulheres conhecidas apenas em seus meios também fizeram História. Aqui relembro e homenageio todas elas, conhecidas ou desconhecidas, pelo nome de uma delas, que, tenho certeza, sintetiza todas: Helena Ferrari Teixeira, conhecida, em Santa Maria-RS, apenas como Helena Ferrari, a primeira vereadora brasileira, eleita em 1952, com extraordinária votação e reeleita para mais dois mandatos.
Sobre ela, tenho dois tipos de depoimento: o do âmbito familiar e o do público. Com relação ao primeiro, registro em breves palavras a minha admiração por essa tia e madrinha querida, que mimou os quatro sobrinhos como ninguém, pois ela não teve filhos – e como tê-los? Não apenas na infância teve por nós imenso desvelo, mas, até o fim de sua vida, ela foi uma entusiasta participante de nossas alegrias e conquistas: acalentou nossos sonhos adolescentes, foi co-autora de muitos projetos que frutificaram e hoje fazem parte de nosso cotidiano. Sempre buscamos nela o ombro amigo nas horas difíceis, e ela foi a nossa sábia conselheira, sempre isenta de qualquer julgamento.
Mas a Helena que aqui homenageio é a mulher pública, a que quebrou barreiras, venceu obstáculos e, como me disse um dia, em carta, ao se referir a meu comentário sobre sua trajetória: “Orgulho-me, sem vaidade, por ter contribuído para a valorização da mulher e para a busca de um mundo melhor”.
Ela foi incrível! Precisei ficar adulta para entender o quanto ela foi grande! Na infância – lembro bem – muito ouvi em casa: “ A Helena é louca!” Ela escandalizava a cidade – e a família enchia-se de vergonha – com seus atos, discursos, atitudes que destoavam do modelo das mulheres de então.
Entre suas ousadias, frequentava o Café Cristal – reduto exclusivamente masculino – para, entre um chope e outro, discutir questões políticas e sociais, enquanto moças e senhoras desacompanhadas não passavam sequer na porta do estabelecimento.
Como Santa Maria foi, em meados do século passado, um importante centro ferroviário, ela defendia os interesses da classe e, por isso, era chamada de “Musa dos Ferroviários”. Apoiava suas reivindicações e os liderava em passeatas pela cidade. Sua atuação política, entretanto, não foi só entre os ferroviários, mas com todo o seu eleitorado: mulheres de várias profissões, donas de casa, funcionários municipais, estudantes.
Ela foi também professora, poetisa, oradora eloquente, líder onde quer que estivesse. Seguidora e amiga de Getúlio Vargas, apoiou sempre os trabalhadores e os mais pobres, sem nunca esquecer as grandes questões nacionais que exigiam debates e esclarecimentos. Uma feminista antes mesmo de a expressão ter sido popularizada. Com não concordasse com mudanças ideológicas de seu partido, retirou-se da vida pública, mas, foi sempre uma entusiasta observadora do desabrochar  das sementes que lançou em terra fértil.
A trajetória de Helena é, hoje, tema de muitos trabalhos acadêmicos da Universidade Federal de Santa Maria, que prestam reconhecimento a seu papel no cenário político e social da cidade. Também a Câmara Municipal de Santa Maria, em 2002, a homenageou como Vereadora Emérita em reconhecimento a sua atuação digna como legisladora, pela sua dedicação ao povo que dela recebeu incontáveis exemplos de dignidade, solidariedade, coragem e fidelidade a seus princípios éticos e morais.
Era muita ousadia para uma mulher naquela época, mas ela soube muito bem se equilibrar entre os seus ideais e as críticas que recebia. Foi indiferente ao julgamento alheio e, consequentemente, superior, como todas aquelas que viveram à frente de seu tempo e buscaram ideais maiores.
E, assim como ela, neste imenso Brasil, houve muitas mulheres que dentro de suas casas, em seus locais de trabalho ou, timidamente, na vida pública abriram caminhos ainda que estreitos para que outras mulheres  os alargassem mais e mais até chegarmos aonde estamos: mulheres ocupam hoje posições sociais e políticas sem que isso cause escândalo, mal-estar ou surpresa.
Ao vivermos este novo panorama, não podemos deixar de reverenciar Helenas, Anas, Teresas, Leilas, todas as Marias e quantos nomes quisermos acrescentar, porque foram elas, mulheres anônimas, as grandes protagonistas de mudanças profundas ainda em curso, que a cada dia buscam tornar o mundo mais justo, mais igualitário, na vida pública com seus evidentes reflexos na vida de todos os brasileiros.
Quando nossa presidente é criticada, aplaudida ou homenageada, nada mais é do que a síntese de todas as Helenas que, com erros e acertos nos legaram um novo capítulo na História não só do Brasil como também do mundo.
Hoje que os caminhos já foram abertos, alargados por muitas antecessoras nossas, que muito mais se faça para que mulheres sejam cada vez mais respeitadas, reconhecidas; e que essa ascensão continue para que possamos legar caminhos muito mais amplos às gerações futuras. E essa é uma tarefa de cada uma de nós no meio em que atuamos, inclusive – e sobretudo – no ambiente familiar porque é lá o cadinho onde se forjam os homens e as mulheres do amanhã. 

         Aliris Porto Alegre dos Santos, uma brasileira de 65 anos
                                                       Brasília, 12.02.2013





VALIOSA OPORTUNIDADE

Ofereço para ti, Iainha, minhas reflexões escritas no ano passado.
Espero que elas te sejam útil no momento.


      Na grande partilha da vida, tenho sido imensamente agraciada. É claro que, às vezes, também me toca um osso duro de roer; em outras, um bonito limão verde e suculento, com sua cica azeda e forte. Foi o que recentemente me aconteceu: tive de fazer uma cirurgia em que praticamente não havia riscos, mas como era num dos pés, exigiu 3 semanas de repouso absoluto, mais 5 de repouso relativo e algumas mais, nem sei bem quantas serão, de muitas limitações para locomoção e severas restrições no calçado a ser usado.
Ao receber aquela fruta linda, mas de difícil digestão in natura, resolvi fazer uma gostosa limonada e a sorvi num delicado copo de cristal, muito bem ornamentado: uma rodela do próprio limão, para não esquecer a essência; um raminho de hortelã para sentir o suave perfume; e uma cereja para lembrar que a doçura da vida se faz presente mesmo quando não a enxergamos vivamente.
Tive excelente atendimento médico-hospitalar; o carinho dos familiares, pessoas próximas e amigos, a dedicação do Nilceu, em quem pude, após tantos anos de convivência, descobrir novas qualidades e habilidades. Ele foi meu enfermeiro 24 horas por dia — sem folga semanal — e, mais uma vez, o meu grande companheiro e amigo.
Mas não é exatamente sobre o cuidado, o carinho, a atenção que tenho recebido que pretendo falar. Quero, sim, expressar o grande momento interior que estou vivendo. Nessa longa aventura tive oportunidade de visitar os mais recônditos cantinhos do meu eu e, em cada um deles, me deter para um diálogo franco, amoroso e, em alguns casos, de reconciliação ou de reconstrução. Já no final do meu período de repouso, sinto-me mais fortalecida, mais feliz e, espero, mais humana e podendo ver a vida com mais amorosidade.
No início, eu mesma me surpreendi ao sentir o quanto estava gostoso o período pelo qual estava passando; familiares e amigos não entendiam como me sentia tão bem naquela situação. Mas, aos poucos, percebi que eu estava precisando desse tempo para mim. Tenho feito de tudo um pouco: leio, medito, tricoto, recebo carinhosas visitas, bato papo ao telefone, navego um pouco na internet e raramente vejo televisão. Preparei, inclusive, a lista das pessoas que pretendo presentear no Natal que se aproxima e, para isso, tenho feito encomendas por telefone ou por e-mail, enfim, rego com alegria e satisfação tudo o que posso fazer. As terças-feiras à tarde são muito especiais. Bebela, minha neta de 3 anos e meio, vem ficar comigo e, então, aproveitamos para descansar e depois brincamos de boneca, fazemos montagens, desenhamos... Tudo em cima da cama! Espero que ela guarde na memória esses gostosos momentos de nossa convivência e que, um dia, ela relembre-os com carinho.
 Voltando à minha lista de pessoas para presentear no Natal, considerei-a muito especial porque nela incluí familiares e amigos que há muito tempo andavam esquecidos! De fato, o corre-corre da vida, muitas vezes, não nos deixa perceber o que está diante dos nossos olhos. E essa minha “parada” me oportunizou tempo para enxergar poesia onde há muito tempo não conseguia ver.
Hoje, após mais de 70 dias da cirurgia, ainda com muitas limitações para  locomoção, ou seja, preciso intercalar breves caminhadas dentro de casa com horários de repouso na cama ou no sofá. E, ao ficar muito tempo no sofá, vi habitada uma casinha de passarinhos na minha varanda. Acompanhei os pais, na sua faina diária de alimentar os filhotes e estes a cada dia a reclamar mais e mais alimentos até que, numa tarde, os três voaram e ganharam o mundo e eu, ali, com tempo para assistir a esse belo espetáculo da vida. Fui copartícipe de momentos de extrema beleza e ternura!
Ultimamente tenho pensado: nem sempre dedicamos tempo ou aguçamos a sensibilidade para ver, sentir e nos determos diante dos grandes espetáculos da vida, mas eles nos rodeiam silenciosos e indiferentes à nossa indiferença!
Ao rever esse período, lembro daquele aviso, nas portarias de algumas entidades públicas, geralmente militares, quando se chega de carro à noite, que diz: Pare/Desligue o motor e os faróis/Acenda a luz interna/ Identifique-se/Prossiga.
Fazendo uma analogia, posso dizer que dos passos acima, estou – por necessidade – no final da identificação e pronta para prosseguir. Pelo menos é o que penso! Talvez o repouso maior que ainda se faz necessário neste momento seja para alguma identificação ainda não identificada.
Enfim, viver é isso: buscar a lição e o encantamento que cada situação nos proporciona, usufruir cada dia a alegria daquilo que dispomos, sem nunca esquecer que tudo contribui para o nosso crescimento: para que possamos hoje ser melhores do que ontem e, amanhã, melhores do que hoje.
                                                 Amorosamente, Aliris
                                                   Brasília, 03.11.2011







SABIÁ, "HOJE EU ACORDEI COM SAUDADE DE VOCÊ!"


Esta manhã, não sei por que, acordei mais cedo. Ainda tentei conciliar o sono, mas os pensamentos não permitiram: voaram, voaram... Lembrei disso, daquilo e me detive na falta do canto do sabiá que, na primavera, algumas vezes acompanha o meu despertar ou não me deixar mais dormir com seu assobio insistente.
De início achei um privilégio meu, no verão sentir saudade do canto do sabiá da primavera. Pensei mais um pouco e lembrei que muito já se falou no canto desse pássaro. Concluí, então, que muitas outras pessoas, como eu, já se detiveram nesse mesmo cismar prazeroso.
“Você sabia que o sabiá sabia assobiar?” Na infância, pediam os mais velhos que repetíssemos a frase para “ treinar a língua”  e aguçar o ouvido às sutilezas do nosso idioma.
“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Na primeira estrofe de Canção do Exílio, Gonçalves Dias, ao expressar saudade de pátria, lembra do canto do sabiá. Alguém já disse que foi para rimar com lá, ou ele precisou do lá para rimar com sabiá? Não sei... não sei! Ainda sobre essa mesma estrofe dizem os mais ortodoxos que o sabiá não pousa nem faz ninho em palmeiras. Eles esquecem na sua rigidez que detalhes como esse pouco importam à poesia mais  preocupada com a escolha de palavras suaves e bem colocadas que denotem sentimentalismo, musicalidade, expressividade.
Seguindo viagem nas minhas reflexões, me lembrei que, há algum tempo, li não sei onde sobre o canto do sabiá. Como é bom saber um pouquinho mais das coisas: é na primavera que ele dá sinal de vida tão logo “rompe fresca e sanguínea a madrugada”.  Pontualidade e persistência, nada mais que a preservação da espécie.
Pelo pouco que sei, o sabiá faz seu ninho no lugar mais protegido possível e, enquanto a fêmea aquece os ovos para que a reprodução se concretize, ele fica ao lado como guardião e seu assobio é para marcar território, dizer aos predadores: eu estou aqui como companheiro fiel e guardião dos ovinhos que logo serão vida para que se perpetue o cantar do sabiá e – quem sabe? – produzir mais e mais reflexões sobre questão que tive tempo e sensibilidade para ouvir e sentir somente depois dos 60 anos.
Você que me lê, preste atenção: comece bem mais cedo a afinar o ouvido e a sensibilidade para os sons da natureza. Vale a pena! Neles, podemos descobrir maravilhas que não se impõem, mas estão ali para o deleite daqueles que têm ouvidos para traduzi-los e, principalmente, senti-los.
Nos últimos anos, em todas as primaveras acontece a mesma coisa: ouço cedo o cantar do sabiá e não sabia ao certo se o ninho era na mangueira ou no abacateiro do meu quintal, dois imensos palácios verdes que abrigam pássaros, insetos e produzem frutos que, além de alimentarem, reúnem amigos para saboreá-los em gostosos bate-papos nos fins de tarde. Nunca procurei saber o local exato, pois acredito que certas intimidades são insondáveis, impenetráveis! É bom que se descubram as coisas lentamente, um pouco por dia... saboreando o prazer de ler nas entrelinhas o que as linhas não querem dizer claramente.
A certeza, entretanto, nem sempre é o que precisamos. Que importava para mim se era na mangueira ou no abacateiro? Desfrutar o som daquele belo assobio tão significativo, nas manhãs de primavera, como um sinal com o sentido que cada um queira lhe dar, é o que mais me sensibiliza.
Agora sei que o ninho fica na mangueira, mas foi alto o preço da minha certeza: o meu belo abacateiro morreu no último inverno, não resistiu ao ataque de uma praga. Toda a família teve com ele uma afetiva convivência por mais de 20 anos. Não só nós, da família, mas também amigos lastimam sua falta... Ele sempre esteve ali sem muito pedir, mas muito a oferecer...
Nossa mente – não precisamos entender muito sobre ela, isso é trabalho para cientistas! – nos faz viajar, sentir, visitar e revisitar situações, locais, amores vividos. Tudo num piscar de olhos! Que privilégio nossa memória!
Hoje desfrutei intensamente desse privilégio: lembrei músicas, fatos passados, poesias e aproveitei para juntar todo esse emaranhado de recordações num formato breve e reflexivo de vivências, que rapidamente me ocorreram. Outras ficaram pelo caminho – não lastimo –, pois o mais importante não é lembrá-las e sim vivê-las no momento certo, sem precisar saber muito bem o porquê.
Sabiás, obrigada por vocês existirem, me darem oportunidade de ouvi-los, de repensar a vida e querer vivê-la sem retoques nem muitas certezas, apenas vivê-la e buscar o que para mim é a sua essência: a felicidade.
Que importa se o sabiá que ouço nas manhãs de primavera está nessa ou naquela árvore, se é o mesmo de outros tempos? Certezas, certezas... para que servem?... Não sei e, mais uma vez, como disse um poeta que não tenho certeza do nome, “Tudo vale a pena se a alma não é pequena!” Quer me parecer tenha sido Fernando Pessoa!
Neste exato momento em que pensei ter posto o ponta final, ouço a conversa de dois bem-te-vis a me dizer: “ – O sabiá está em outra estação, mas eu aqui estou!”
Conversas de bem-te-vis será assunto de outra reflexão! Que bom! O mundo está cheio de oportunidades, basta saber vê-las, ouvi-las, senti-las e, se possível, vivê-las em toda a sua plenitude sem muitas perguntas, respostas ou certezas... apenas vivê-las!
            
                                        Amorosamente, Aliris
                                         Brasília, 11.01.2013