sexta-feira, 27 de setembro de 2013


HÁ 40 AN0S...


É isso mesmo, Nilceu, depois de amanhã completaremos 40 anos de casados, sem contar os outros quatro de namoro, noivado, enfim, de amorosa convivência.

Nos últimos dias, muitas vezes, tu chegas perto de mim e comentas: “Como esse tempo passou depressa!” Certamente! Mas existem razões que bem podem nos explicar o porquê dessa rapidez.

Desde que nos conhecemos, em 16 de maio de 1965, passamos a viver um para o outro: em cada fase da vida, de acordo com as necessidades e exigências familiares e/ou profissionais, de uma forma mais próxima ou um pouco mais distanciados, mas sempre pautados pelo amor e pelo nosso código de ética, que foi sendo tacitamente estabelecido ao longo do tempo e, para nós dois, de absoluto respeito.

Nesses anos todos, compartilhamos a vida: houve momentos maravilhosos, outros bons, outros nem tanto... houve também os difíceis, os muitos difíceis, mas superados pelo amor e pelo respeito mútuo.

Entre os momentos maravilhosos, podemos lembrar o dia em que nos conhecemos, o que nos casamos, o nascimento do Junior, da Raquel  e da Mauren (o nascimento de cada um deles foi especial, diferente, particular); a chegada do Eduardo e da Isabela, o que, embora tenha me obrigado a dormir com o vovô e tu, com a vovó, nos trouxe também uma nova e rica experiência de vida. A presença da Nonô na família que, tenho certeza, é uma filha que veio para nós de outra forma.

Entre os bons momentos, considero nossas conquistas profissionais e também as materiais. Não posso esquecer as acadêmicas, pois tanto eu como tu concluímos o curso superior e o mestrado já caminhando juntos.

Os que não foram tão bons prefiro esquecer, e dos difíceis guardo as sábias lições que sempre soubemos tirar desses fatos inevitáveis.

A rapidez desse tempo se deve também aos inúmeros sonhos que acalentamos para nós e para nossos filhos: o empenho para tudo isso exigiu tempo, dedicação, compartilhamento...

Tudo nos envolve e faz o tempo parecer voar... Mas como disse Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Enfim, no balanço que, hoje, faço da nossa vida a dois, posso dizer que os momentos positivos superaram em muito aqueles que não foram bem como gostaríamos que tivessem sido. Embora não seja muito dada a cálculos, afirmo que, com certeza, o lado bom corresponde a, no mínimo, 95% desses anos. Estou certa? Aceito ser corrigida...

O que aqui expressei, são breves registros daquilo que me vai n’alma, mas ainda preciso refletir um pouquinho mais tanto sobre o passado como sobre o futuro. No que diz respeito àquele, não posso deixar de prestar meu tributo de gratidão a nossos ascendentes e irmãos, que nos deram a base necessária para nossas vidas e/ou o apoio em cada momento alegre ou triste, mas sempre presenças decisivas, carinhosas, amorosas...

Quanto ao futuro, basta apenas continuar  cultivando nossos valores e bem vivendo a vida, pois  em termos familiares, profissionais e sociais, penso que, até aqui, a lição está muito bem feita, não digo concluída, pois sempre há o que se fazer...

Com relação a nossos filhos, acho que lhes demos raízes e asas – é só curti-los, amá-los, partilhar com eles os bons momentos, as conquistas, as alegrias e ampará-los em suas dificuldades.

Com relação aos netos, amá-los muito e educá-los pelo exemplo, apenas chamar a atenção quando absolutamente necessário, pois esse papel não é nosso, senão em raras exceções, digo até raríssimas.

Com relação a mim, felizmente, tenho ainda que zelar pela minha mãe e cultivar a amável, carinhosa e respeitosa convivência com minhas irmãs e sobrinhos. Com relação a nós, minha sugestão é viver, cada vez mais, pautados pelo amor, pela ética e respeito a nossas individualidades, pois, certamente, foi isso que nos fez tão felizes até aqui, que até nos parece que não são 40 anos... temos a sensação de que foram, talvez, 10, 15... Sei apenas que vivemos, demos vida que se transformaram em novas vidas, que espero, possamos continuar dando a essas vidas nosso testemunho do que seja realmente viver.



                               Amorosamente, Aliris

Casa da árvore*, 06/02/2009





*Em nosso quintal, existe uma gostosa casa na mangueira que fascina não só as crianças como também os adultos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013


CONVERSA DE CORREDOR



— Oi, Eusébio!

— Oi, Marina! Há quanto tempo!

— É mesmo, Eusébio, faz tanto tempo que a gente não se vê nem nos elevadores nem nos corredores.

— É, a gente chega ao Tribunal, se debruça no trabalho e não tem tempo de ver ninguém, além dos colegas que estão na nossa sala!

— Sabe? Isso tem me preocupado muito. É o mesmo com a família e os amigos! A gente não para de correr. Os tempos modernos estão exigindo de nós cada vez mais. Não sobra tempo pra mais nada.

— Dizem os entendidos que é culpa da vida moderna. Não sei! Mas sabe, Marina, isso, em breve, vai mudar na minha vida.

— Você já descobriu como resolver isso?!! Eu também quero essa fórmula mágica!

— Não vou exatamente resolver esse problema mundial! Eu é que vou mudar de vida: vou me aposentar!!! Já estou com 34 anos de serviço e, logo logo, vou viver a vida que pedi a Deus!

— Mas não é só você! Eu já vou completar 30 anos de serviço e, pra mim também já está chegando a hora tão esperada!

— É, mas essa mudança, às vezes, me deixa preocupado. Mudar de um dia pra o outro... não sei se vou me adaptar!

— Eu também já pensei sobre isso e confesso que, ao lado da vontade de não ter horário, ter tempo livre pra fazer o que quiser, vem um certo desconforto. Não sei como será!

— Já que estamos falando nisso, você já foi à Seção de Legislação de Pessoal pra ver quando você pode se aposentar?

— Ainda não. Não sei se por falta de tempo ou por fuga! Mas eu soube que os aposentados aqui do Tribunal — dizem que eles são organizadíssimos — escreveram o Manual de Aposentadoria, que dá todas as dicas, não só da parte legal, mas também passa emoções e experiências vividas, além de sugestões.

— Eu não sabia disso! Onde se consegue esse Manual?

— É a coordenação do PGQVT* que distribui. Vou passar lá no ProSocial** e pegar um pra mim e um pra você.

— Que bom! Pegue mais um, por favor. Eu tenho uma colega que vai se aposentar por problemas de saúde e, com certeza, como ela está de licença há algum tempo, não deve conhecer esse Manual. Ele é recente?

— Não sei, Eusébio! Mas eu passo lá pego três e levo dois pra você.

— Você promete?!

— Hoje eu estou muito atrapalhada, mas, amanhã, sem falta, levo lá na sua sala.

— Bem, enquanto a gente não se aposenta, o jeito é correr. Tchau, Marina. Te espero amanhã!

— Tchau, amanhã, sem falta!


MARINA CUMPRE SUA PROMESSA



— Eusébio, eu trouxe o que prometi!

— Oi, Marina! Não via a hora de você chegar com o Manual. Ele é mesmo interessante/!

— Muito! Veja! Ele tem resposta pra quase todas as nossas perguntas. E, além disso, nos faz refletir sobre coisas que ainda não tínhamos pensado. Traz também dicas e sugestões.

— Deixe-me ver do que se trata. Você está mesmo muito interessada.


* Programa de Gestão em Qualidade de Vida e Trabalho
**Programa de Saúde da Secretaria de Programas e Benefícios Sociais do TRF-1ª Região.

(Texto de abertura do livro  Aposente-se: o único risco é ser feliz! publicado pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, outubro de 2003.)



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

NO DIA DOS PAIS


Minha homenagem a quatro homens e uma mulher que, cada um a seu modo, têm um lugar especial no meu coração: meu pai, o pai de meus filhos, meu filho que também é pai, meu neto que, tenho certeza, a seu tempo também será um grande pai, e minha filha Mauren que, ao ser mãe, viu-se na contingência de tornar-se “pãe”.
Todos eles que, à primeira vista, parecem tão diferentes, na realidade são iguais na essência, no amor, na dedicação à família, no cumprimento do dever, no ombro amigo dos momentos difíceis, no partilhar alegrias e conquistas.

 

Falar de meu pai, Alyrio, que há mais de 30 anos se mudou para o céu – não o imagino em outro lugar! – é uma delícia. Nunca me permiti tristeza pela nossa separação, porque a sua forma de aceitar e sentir a vida sempre me inspirou alegria.
Na infância soube brincar com as três filhas como se fosse mais uma criança; participou de nossos sonhos e vaidades adolescentes; recebeu os genros como os filhos que não teve; enquanto a saúde lhe permitiu, conviveu com os netos que guardam doces e pitorescas recordações desse avô. Tudo isso sem falar das fantásticas histórias que povoaram o meu imaginário infantil e o das minhas irmãs.
Ele, é claro, era sempre o grande herói. Uma cicatriz que tinha no polegar direito era a prova da mais fantástica das histórias. Aquela cicatriz era, nada mais nada menos, do que a marca que ficou da sua luta com o lobo da floresta em que costumava brincar. Essa é uma das histórias que conto a meus netos que se emocionam com esse bisavô que, como explico, usando o linguajar deles, era o “maior legal”.
Pai, contigo aprendi que viver é muito mais que cumprir deveres: é amar, é compartilhar bons e maus momentos com a nossa presença, sem muito explicar ou explicar-se. Te amo muito!

Meu marido, Nilceu, o pai que escolhi para meus filhos, grande companheiro e amigo há mais de 40 anos.
Pelas exigências profissionais impostas pelo mercado de trabalho do último quartel do século XX, ele soube muito bem equilibrar-se no papel de marido, pai, profissional e provedor da família, uma vez que se entregava com afinco ao trabalho para que eu pudesse me dedicar quase que exclusivamente aos três filhos. Nesse período, eu apenas trabalhava nas horas em que ele pudesse me substituir.
E, tenho certeza, os filhos gostavam muito dessa troca. Os quatro corriam dentro de casa, pareciam todos crianças: ele dava as soluções mais inusitadas aos problemas que surgiam, nunca faltava refrigerante nem chocolate para regar e adoçar as brincadeiras. Enfim, tudo muito divertido, bem ao gosto da meninada!
Mas havia também os apuros: ele, para o desespero dos filhos adolescentes, diante dos colegas, os chamava pelos apelidos que eles preferiam não ultrapassem as fronteiras da intimidade ou pelo fato de ouvir em casa músicas de Nelson Gonçalves em alto e bom som.
Ah, se todos os problemas fossem apelidos ou músicas antigas! O mundo seria outro e muitíssimo melhor! Hoje, eles já adultos vivem outros tempos e cantam com o pai músicas antigas, mas eternas, no videoquê, em nossas gostosas reuniões com a família e os amigos.
Velhinho, tenho certeza, não decepcionei nossos filhos com o pai que escolhi para eles. Muito mais que isso, tu és para eles o esteio, o ombro amigo – embora severo – de todas as horas. Posso te dar um conselho? Eles já estão adultos, não precisa mais ser severo, oferece apenas o ombro amigo e deixa tua opinião expressa apenas nas entrelinhas.
Nilceu, contigo aprendi que, por mais difícil que seja uma situação que se nos impõe, ela sempre traz algo de positivo ou tem uma lição a nos ensinar. Te amo muito!


Meu filho, Junior, um casulinho fechado, que eu entendo apenas pelo olhar, relutou um pouco em ser pai, não por medo, mas pelo excesso de responsabilidade.
Quando o vejo com Isabela muito aconchegada e cheia de segurança no seu colo, me vejo criança tal a semelhança entre meu pai e meu filho, quer no aspecto físico, quer no modo de ser.
Logo que a filha nasceu, conversou longamente comigo sobre como lhe garantir uma boa educação, segurança, estabilidade. Nesse nosso “filosofar”, falamos sobre o pouco ou nada que as palavras educam e na importância dos ensinamentos que transmitimos pela “atmosfera” do viver de cada dia, ao longo do tempo, mas lembrei-lhe que nunca esquecesse que deveria amá-la  sobretudo quando ela menos merecer porque é, certamente, quando ela mais precisará.
Junior e Isabela, hoje com 5 anos, têm brincadeiras que são só deles, como arrumar a geladeira da casinha dela ou curtir a coleção de carrinhos que fazem juntos. Esses doces momentos tão importantes hoje, tanto para um como para o outro, muito mais o serão quando vistos através do túnel do tempo. Tenho certeza, ela será, como outras marcantes figuras femininas da nossa família, muito segura e muito “dona do seu nariz” porque viveu doces momentos na infância em meio ao carinho responsável que permeia o dia a dia daquela casa.
Junior, contigo aprendi – de maneira doce, mas firme – alguns limites que as mães frequentemente esquecem. Te amo muito!


Meu neto, Eduardo, que, infelizmente, não teve a presença constante do pai, muito se resentiu por essa situação. É certo que soube – com a presença constante de sua pãe e o apoio de toda a família – muito bem conviver com a sua realidade nem sempre fácil, embora aceita de maneira natural e amena.
Como ele também já gosta de “filosofar” comigo, sempre me fala como vai cuidar dos filhos dele: pretende ser muito companheiro e assistir com eles a muitos e muitos filmes. Como é bom quando a falta, em vez de marcar negativamente, nos faz melhores e mais atentos!
Eduardo, é isso mesmo! Esquece o que não foi bom e transforma tudo em vivências amorosas que, embora não preencham lacunas, te possibilitarão, um dia, viver com doçura a relação pai-filho. Contigo comecei a aprender a ser avó, uma das mais ricas experiências de vida e estou sempre sendo lembrada, por uma frase que tem a “tua cara”: a coisa mais importante na nossa vida é a família! Te amo muito!


Minha filha Mauren, a pãe, ainda muito jovem, foi gigante ao assumir, a um só tempo, maternidade e paternidade.
Eduardo, hoje com 10 anos, tem uma relação muito peculiar com a mãe: ele a vê como mãe, pai, irmã, amiga, provedora do lar, tudo com muita simetria, o que, às vezes, exige um grito para deixar claro quem manda e quem tem de obedecer.
A vida, na casa deles, é muito divertida, os problemas têm as soluções menos prováveis possíveis.Tudo com muito riso e a cumplicidade dos dois.
Mauren, a vida, às vezes, nos impõe responsabilidades que não prevíamos, mas te vejo altiva diante da tua realidade. Em todos os papéis, tu deste ao Eduardo amor, segurança, tranquilidade, companheirismo e já estás começando a colher os frutos da tua dedicação. Neste momento, como as sementes foram lançadas em terra fértil, agora só é preciso cuidar para que não sejam contaminadas por ervas daninhas, é hora de cuidar um pouco mais para ti. Tu sabes muito bem como fazê-lo.
Minha filha, contigo tenho aprendido a deixar as coisas acontecerem por si sós, sem precipitações, angústias, antecipações.Te amo e te admiro muito!

Penso ter homenageado cada um deles ao expressar meus sentimentos, minha gratidão e a certeza de que todos eles – cada um no seu papel – tiveram relevância decisiva para que eu seja o que hoje sou: filha, esposa, mãe e avó que curte, com emoção e alegria, cada uma dessas facetas da vida. E mais, todos eles continuarão a me inspirar e a me ensinar vida afora como têm feito ao longo dos anos.


                                                      Amorosamente,   Aliris
                                                                 agosto/2013










quinta-feira, 25 de julho de 2013


UMA ESTRANHA SENSAÇÃO DE PAZ



Nunca Porto Alegre me pareceu tão sombria e despida de seus encantos. Naquela tarde do início da primavera de 1994, lá cheguei para cumprir um dever de família e acompanhar meu sobrinho Eninho à sua última morada. Assim pensei!         
Os primeiros momentos foram muito difíceis, via no semblante de cada membro da família a tristeza e a incompreensão que aquele fato absurdo e inesperado trouxe a cada um; no dos amigos, a perplexidade diante do acontecido, só se explicando como aquelas coisas inexplicáveis que a vida às vezes nos impõe.
Naquele ambiente, tudo era tristeza, cada um sofria a seu modo aquela perda irreparável, pois Eninho representava a esperança e a alegria. Era, aos 16 anos, uma promessa que a todos estimulava com o seu sorriso franco e seu jeito ainda moleque de ser.
Mas as horas foram passando e a minha permanência naquela capela foi, aos poucos, fazendo-me sentir, em meio à minha dor e a de cada um, que ali pairava uma paz nunca vista nessas ocasiões. E eu fui tomada de uma tranquilidade tão profunda que me detive para refletir sobre o que estava sentindo. Concluí, então, que aquela paz, com certeza, era fruto do próprio modo de ser de Eninho que transcendeu as fronteiras da morte e conseguiu, mesmo no silêncio mais profundo, contagiar a todos que o rodeavam com a serenidade que caracterizou sua breve, mas marcante existência e transmitir a harmonia da nova vida que para ele se iniciava.
Dentro de minhas limitações, assim soube explicar a mim mesma, naquela ocasião, sensação tão marcante e incomum que senti.
Os anos passaram e vi que me equivoquei ao pensar que, naquele dia, tinha acompanhado meu sobrinho à sua última morada. Já há algum tempo, as cinzas de Eninho estão na casa de seus pais e toda a família convive carinhosa e naturalmente com a singela urna que está numa das salas daquela grande casa.
Quando chego lá, logo vou “conversar” com ele e sempre sou tomada pela mesma sensação de paz que descrevi. Talvez, hoje, entenda um pouquinho mais sobre esse sentimento que me invadiu, continua a me invadir e me fascina cada vez mais. Mas, como tenho dito, não estou mais muito preocupada em entender o que nem sempre é de fácil entendimento. Prefiro apenas curtir esses doces momentos, sabendo que Eninho, de alguma forma, está ali e compartilha comigo sua paz, sua serenidade, sua energia inconfundível.
Esta é minha homenagem a ele no dia que marca 35 anos de seu nascimento.
                                                                Amorosamente,   Aliris
                                                                           25.07.2013


segunda-feira, 15 de julho de 2013

CAVACOS DO OFÍCIO



Hoje, debruço, numa das janelas da minh’alma, um pouco do meu eu profissional. Como professora de Língua Portuguesa, além  de exercer o magistério por 36 anos, fui também revisora  – tarefa extremamente difícil que, às vezes, nos surpreende desagradavelmente.
Sobre isso, um desabafo escrito em março de 2004, que continuo endossando ipsis litteris.
Ao concluir a revisão de um texto, após muitas leituras e análises, temos a convicção de que tudo está, de fato, correto. Quando o texto sai publicado, no entanto, vêm as surpresas. Às vezes, as mais desagradáveis possíveis.
Monteiro Lobato expressou essa situação com o comentário a seguir transcrito. "A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se invisíveis. Mas assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência não conseguiu decifrar..."
Há algum tempo, está sendo veiculada pela internet, sem referência a autor nem a fonte precisa, a informação seguinte. “De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Vdaerde!”
         O tempo passa, as explicações se modificam, mas  o problema persiste!
É certo que, hoje, a informática auxilia a tarefa de revisão, quer com relação à troca de letras, falta de espaço entre as palavras, repetições ou, quase sempre, incorreções ortográficas A revisão final de um texto, entretanto, continua e, certamente continuará até onde consigo vislumbrar, a ser uma tarefa humana que exige, além de amplo conhecimento da língua, extremo cuidado, alto grau de concentração e muitas horas de trabalho.
No livro As Mentiras que os Homens Contam, Luis Fernando Verissimo, como sempre, nos diverte ao escrever na crônica Sebo, sobre o desespero de um escritor iniciante que descobre um cacófato no seu único livro publicado. O desespero era tanto que ele foi ao “fim do mundo” para recolher todos os poucos exemplares vendidos.
É hilaria a descrição do último exemplar encontrado, fora adquirido num sebo, por um colecionador  de livros que – por educação – disse ter lido não uma, mas duas vezes para ser ainda mais gentil. Como todos que possuíam o livro, entretanto, foi morto porque ninguém que tivesse lido poderia continuar vivo: “Ele não podia suportar a ideia de descobrirem seu cacófato”.
Que isso lhe sirva de consolo quando perceber tardiamente um erro, às vezes bobo, que não poderia ter passado despercebido. Como não há mais nada a fazer para solucionar o problema, faça, então, apenas um ar de desapercebido e continue sendo feliz! Sou bem mais discreta que “aquela ministra”!


 Com compreensão a mim própria e a todos os revisores
                                             08.07.2013



segunda-feira, 3 de junho de 2013


PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER


É isso mesmo! Como escreveu e cantou Raul Seixas, em meados do século passado, eu também quero me ausentar um pouco deste mundo violento, insensato, desumano. É claro que gosto de viver – embora a morte não me assuste – e de que adiantaria com ela me amedrontar?! –, mas não estou mais conseguindo conviver com tudo que tenho presenciado. É demais!

Até pouco tempo atrás, tudo o que hoje me apavora, eram notícias veiculadas pela mídia, longe de mim, da minha família, da minha rua, dos amigos. Vejo, agora, que tudo mudou: sinto um medo racional que penso não ser apenas meu, mas de todas as pessoas que, como eu, sempre pautaram  a vida pela dignidade e pelo respeito ao próximo. Também me assusta a resposta que a natureza vem dando à irresponsabilidade como é tratada: a humanidade precisa dela, enquanto ela seguiria seu rumo muito bem e até melhor sem a presença do homem na Terra. Quanta ironia!

Mas o que realmente me amedronta? São tantas as minhas preocupações que cito apenas algumas dentre elas.

A destruição dos núcleos familiares; o desrespeito à pessoa humana, cujo bem-estar – e mesmo a vida – para alguns não vale absolutamente nada; a falta de segurança dentro e fora de nossas casas, o desrespeito a crianças e idosos; as drogas que aniquilam e matam; o desrespeito das pessoas consigo mesmas, a desonestidade nas diferentes esferas sociais. Tudo isso ainda sem falarmos nos grandes e pequenos gestos que redundam em imensas catástrofes; nas decisões governamentais mundo afora que a cada dia destroem mais e mais; nas diferenças religiosas que, em vez de disseminar o respeito mútuo, acirram ódios incontroláveis que destroem e matam em proporções cada vez mais assustadoras.

Esse é o desabafo de uma cidadã de 62 anos, filha, esposa, mãe, avó, irmã, sobrinha, tia, professora e servidora pública, hoje aposentada, que pensa ter pautado a sua vida pelos princípios éticos e morais com quem tem convivido ao longo dos anos, tanto intra como extramuros.


                                             Amorosamente,  Aliris
                                                                                1º/ 05/2010


P.S. Hoje, 25 de maio de 2013, ao escolher este texto para compartilhar com meus leitores, como há três anos, reafirmo minha disposição de pedir que o mundo pare para eu descer, ou seja, literalmente, me ausentar do que me amedronta, para expressar em uma só palavra: da violência. Constatei que passou algum tempo e nada mudou, pelo contrário, os meus medos se mantêm e, em muitos casos, muito maiores do que em 2010. 

sábado, 11 de maio de 2013

ECOS DE UM COTIDIANO






Ao longo de nossas vidas, passamos por diferentes – e até opostos – momentos interagindo com as mesmas personagens. Temos amigos de longa data, é claro, mas isso acontece principalmente no meio familiar.
 Assim a nossa relação com nossos pais não foge a essa regra: no início, somos inteiramente dependentes deles e a situação, sem que percebamos muito bem, vai se modificando, modificando... até chegarmos à situação inversa. Como tenho dito a meus filhos, o momento dessa troca inevitável e irreversível é muito difícil tanto para uns como para outros... Mas é a vida! Até que chega um dia em que os pais partem... e os filhos passam a ter uma estrela guia em cada um deles. Que bom, pais e filhos         continuam juntos a caminhada!
Meu pai é, para mim, uma estrela que me orienta, me aponta caminhos, me aconselha há mais de 30 anos; minha mãe, pelo seu atual estado de saúde, acredito, que viva entre dois mundos: quase não participa mais deste, mas já “visita” outras dimensões. É o que penso... se estou certa, pouco importa! Não estou mais preocupada com certezas, exatidões, mas apenas em sentir, entender, como posso, o não dito, o nem sempre aceitável.
Felizmente, eu e minhas irmãs, Iainha (Ana Maria) e Ana Lucia, soubemos, muito bem, no dizer da mãe, “separar o joio do trigo” nessa quadra da vida familiar e nos tornamos ainda mais próximas, solidárias e cúmplices no bom sentido. Essa, como qualquer outra situação, por mais difícil que seja, sempre traz consigo seu lado positivo. É só saber procurar com sensibilidade e, se nada for encontrado, pelo menos, que saibamos entender a mensagem que, ali, inevitavelmente existe.
Num encontro de nós três em Porto Alegre, no ano passado, conversávamos e, sem perceber, ora repetíamos uma ou outra expressão que ouvíamos da nossa mãe. Foi, então, que nos detivemos no sem-número de provérbios, ditados e expressões que ela usava no cotidiano. Para “não gastar o seu latim”, expressava por metáforas o que muitas palavras não diriam tão bem nem com tanta poesia, se bem que, às vezes, ela estivesse “sem poesia!”, ou seja, sem ânimo, sem muito entusiasmo. Nesse dia, resolvemos anotar toda essa riqueza que nos foi presenteada ao longo da vida e, à medida que nos lembrávamos, numa ação conjunta, fomos relacionando e chegamos a  pouco mais de uma centena. Foi mais um bom momento que a mãe nos proporcionou na sua mudez  muito mais eloquente do que silenciosa.
O que compilamos, nada mais é do que um registro amoroso e, ao mesmo tempo, pitoresco que muito bem expressa a filosofia de vida da nossa mãe. Hoje nós usamos ora com uma, ora com outra expressão que ela dizia, o que mostra o quanto dela existe em cada uma de nós. Talvez a relação não esteja completa, mas sempre será tempo para acrescentar o que for sendo lembrado.
Leia, divirta-se, registre o que achar interessante... logo, logo, você estará usando. Há coisas – que achamos – só ela sabia! Outras, um pouco herméticas, quando necessário, consulte a “tradução”! Com certeza, vale à pena ler! Como linguista, não posso deixar de acrescentar que é, também, uma variante tanto temporal como regional. Com toda a certeza, nem sempre muito clara para as novas gerações e/ou para quem não é familiarizado com o falar gaúcho.

Ela dizia com freqüência: Atrás de mim, virá quem bom me fará!(1)/ Faça o bem sem olhar a quem!/ Dia de muito, véspera de pouco!/ Quando o gato sai, os ratos tomam conta!/ Onde o galo canta, janta!(2)/ Quem come de pé, não alcança o que qué(r)!/ Quem dá o que tem, a pedir vem!/ Quem veste o alheio, na praça o despe!(3)/ Não vale a pena gastar pólvora com ximango!(pra não esquecer a história do RS)/ Muito riso, pouco siso!/ Quem faz mais do que pode, é ladrão!(4)

Estas são imperdíveis: É fácil fazer cortesia com o chapéu dos outros! /Quando o pobre acha um ovo, é podre!/ Às vezes, é preciso ter paciência de Jó!/ Quem não tem cabeça, tem perna(s)!/ Não vá o sapateiro além da sola!(5)/ Beleza não põe a mesa!/ Não sei se assobio ou se toco flauta!/ Quem puxa aos seus, não puxa aos estranhos!/ Quem canta, seus males espanta!/ Ata ou desata! (ela sempre foi muito educada)/ Em casa de ferreiro, espeto de pau!/ Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece!

Anote também: Quem não tem cão, caça com gato!/ Cavalo dado não se olha o pelo!/ Deus ajuda quem madruga!/ Nunca falta um chinelo velho pra um pé torto!/ Não tem eira nem beira! (6)/ Viva o luxo e ronque o bucho!/ Cada macaco no seu galho / Não há bem que sempre dure nem mal que se não acabe!/ O que é de gosto é o regalo da vida!/ Comer o pão que o diabo amassou com os pés!/ Dai a César o que é de César!/ Coso-te vivo(a), vivo(a) te coso!(7)

Algumas situações só eram bem expressas por: Pra o bom entendedor, meia palavra basta!/ Quem cala, consente!/ Estava dando sota e basto!(8)/ Devagar se vai ao longe!/ Antes só do que mal acompanhada!/ O seguro morreu de velho!/ Quem semeia vento, colhe tempestade!/ Pra quem é, bacalhau basta! (9)/ Depois do mal feito, chorar não há proveito!/ Devagar com o andor porque o santo é de barro!/ Mais beijado(a) que anel de bispo!(10)/ Mais vale um pássaro na mão do que dois voando!/ Ali, educação é manga de colete!

Mas havia espaço para: Isso só vou admitir o dia em que as galinhas criarem dente!/ Não sabe o que quer! Parece a cobra que perdeu o veneno!/ Gato escaldado tem medo de água fria!/ Juntou a fome com a vontade de comer!/ Parece que está matando cachorro a grito!/ Nem tanto ao mar, nem tanto à terra!/ Ir de vento em popa!/ É pior que procurar agulha no fundo do palheiro!/ Vai dar com os burros n’água!/ Não se pode contar com o ovo que a galinha ainda não botou!

E a fila ainda não parou: Pior a emenda que o soneto(11)/ Mais abandonado que gato em tapera!/ Mais sujo que o último pau de galinheiro!/ O cachorro, quanto mais magro, mais sarna tem!/ Deus dá o frio conforme o cobertor!/ Não te mete de pato a ganso!/ Cada um colhe o que semeia!/ Em terra de cego, quem tem um olho é rei!/ Cuidado com remédio pra não morrer da cura!/ De mal agradecido, o inferno está cheio!/ A dor ensina a gemer!/ Não come o ovo, pra não botar a casca fora!/ Quem conta um conto aumenta um ponto!/ Amarra-se o burro à vontade do dono!/ Ela? Continua dando pancas!(12)/ Quem foi rei, sempre será majestade!

Para nós, as filhas, havia conselhos e advertências especiais. Eram algumas vezes educativas, amorosas; outras, bastante severas. Não podemos esquecer que, como dizia meu pai, “ela é uma pessoa muito boa, mas muito matemática”, a uma alusão a ser ela professora dessa disciplina.

Quando pequenas ouvíamos com frequência: A mentira tem pernas curtas!/ Quem mente, furta!/ O que arde cura, o que aperta segura!(13)/ É preciso rédeas curtas!/ Estou só te cubando!(14)/ Estou vendo, tu “tá” só empalhando!(15)/ Crianças, vocês estão pedindo laço(16) como pão pra boca! Felizmente ficava só na conversa. E, ainda, “Isso brada aos céus!”, quando nós reclamávamos da comida. E, completava, “Há crianças que não têm sequer um pedaço de pão pra matar a fome”.

  Mais tarde, o enfoque mudou e nós muito escutamos: Ouve o conselho de quem muito sabe, mas ouve principalmente o de quem muito te quer! / As palavras comovem, os exemplos arrastam!/ Não vai arrumar sarna pra te coçar!/ Cuidado com o que vocês fazem, senão podem ficar faladas!/ Dize-me com quem andas que dir-te-ei quem és!/ Quando tu está(s) indo, eu já estou de volta...há muito tempo! (uma enroladinha não era fácil!)/ Como demorou... quando eu tiver que mandar buscar a morte, peço pra ti!/ Primeiro o dever, depois o prazer! Mãe, será que alguma vez não se pode comer primeiro a sobremesa?! Acho que sim! Talvez, hoje, com a “lição de casa” em dia a gente, às vezes, possa se permitir.

Nos diálogos, ela usava expressões que lhe eram muito peculiares como: Falando com os meus botões.../ Fiquei com o coração na mão.../ Botando os pingos nos iis.../ Mudando de saco pra mala/! Quando eu bater as botas.../ Fiquei em maus lençóis!/ Estou com o pala em tiras!(mais um gauchês!)/ Fiquei em palpos de aranha!(17)

A citação aleatória, sem nenhum critério lógico, nada mais é do que a forma como guardamos na memória. Lá, está tudo muito bem registrado, disponível para usarmos à vontade no momento oportuno, tudo com o sabor de um cotidiano distante, muito mais alegre do que triste, mas sempre solidário, amoroso e fraterno.  
Ao registrar, dividimos com outras pessoas o que ela não mais expressa, mas foi sua marca registrada. Enfim, um pouco de sua filosofia de vida... toda ela, só nós três tivemos o privilégio de conhecer e, hoje, orienta nossas vidas e a de nossos filhos e netos, o que a torna presença viva no seio da família. Podemos até dizer, ela é como uma sempre-viva, uma florzinha singela, mas com nome profundamente significativo, pois quanto mais se cala, mais e mais presente se faz!  


 Amorosamente, Aliris, com a colaboração e o endosso de Ana Maria e Ana Lucia, filhas de Alyrio e Iolanda Porto Alegre, pelo Dia das Mães, em 2013.
                     
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(1)     Uma situação que muito bem explica esse ditado é a do povo que reclama de um governante, no entanto, quando este é substituído, logo percebe que o anterior era bem melhor.
(2)     Uma alusão aos maridos traidores que, após o trabalho, passavam na casa da “outra”, mas iam jantar em casa, tomar banho, deixar roupa suja, mau humor... .
(3)     Refere-se a usarmos o que não é nosso e à possibilidade de podermos, a qualquer momento e até em situação constrangedora, sermos obrigados a devolver ao dono.
(4)     Não significa apenas roubar alguma coisa de alguém, mas de nós mesmos, ou seja, esquecer que temos limites.
(5)     Um sapateiro, visitando uma exposição de quadros, disse ao artista que a bota do cavaleiro num dos quadros, tinha um defeito. O artista ouviu-o atentamente e corrigiu seu erro. Ao voltar lá, o sapateiro, muito feliz, achou a correção perfeita, mas explicou ao artista que agora o que precisava ser corrigido era a gravata do mesmo cavaleiro. O artista lhe respondeu:
— Não vá o sapateiro além da sola!
(6)     Uma referência à arquitetura do Brasil colonial em que as casas tinham eira, beira e até tribeira, dependendo da situação financeira do proprietário, quanto mais rico mais detalhe! Quem não tinha eira nem beira, estava na miséria.
(7)     Também uma referência ao Brasil de então em que era costume costurar a roupa ou a mortalha no corpo do defunto. Assim, se alguém costurasse ou fizesse qualquer ajuste na roupa que outra pessoa vestia, devia repetir essa expressão para não parecer que estivesse lidando com morto.
(8)     Sota e basto significa ser mais esperto que os outros; vencer (alguém) em alguma habilidade; dar a sorte. Sota = dama das cartas do baralho; basto = ás. Botar na mesa a um só tempo essas 2 cartas, em determinado jogo, certamente era a grande cartada.
(9)     Mais uma alusão ao passado, quando comer bacalhau – ao contrário de hoje – era vergonhoso. As pessoas, quando cozinhavam essa iguaria, fechavam portas e janelas para que os vizinhos não sentissem o cheiro. A expressão completa é: “Pra quem é pouca coisa, bacalhau basta!”
(10) Também de antigamente, pelo menos é o que penso! Vem do costume de os fiéis beijarem o anel do bispo da diocese.
(11) Às vezes, tentar consertar uma situação ou uma afirmativa, é bem pior.
(12) Do gauchês, significa um comportamento por demais extrovertido. É claro, aplicava-se principalmente às mulheres.
(13) Era o que ouvíamos quando tínhamos que lavar ou aplicar remédio, principalmente mertiolate em qualquer machucado.
(14) Como professora de matemática, usava o verbo cubar, no sentido de medir a capacidade dum recipiente ou recinto. Metaforicamente, estou te avaliando, te observando.
(15) Demorando, “enrolando”.
(16) Laço, em gauchês, significa surra.
(17) É o mesmo que fiquei em apuros.